Palestra V - Mudanças Sociais, Sofrimento Psíquico e Saúde Mental na Universidade

Hoje, é como se vivêssemos sob as lentes de um microscópio pelo qual somos observados (e nos observamos) o tempo todo. Prazos, metas e exigências de produtividade disputam espaço com demandas e relacionamentos íntimos, enquanto crises político-econômicas se traduzem em cortes orçamentários, redução de bolsas e revisões institucionais sobre objetos de interesse para pesquisa e financiamento. De surtos epidêmicos, crises econômicas e migratórias na América Latina, ou pesquisas genéticas (polêmicas) na China, passando por crises existenciais – “casar, ter ou não ter filhos”, “fiz bem em entrei na pós-graduação neste momento de crise econômica?”, “minha pesquisa tem relevância social, vai/vou ser reconhecida um dia pelo meu trabalho?” – até a escolha de objeto de pesquisa e orientadores; vivemos sob um imperativo geral de planejar e concretizar uma biografia profissional. Por isto, somos constantemente convocados a avaliar, negociar e justificar nossas escolhas, entre demandas contraditórias (e por vezes inconciliáveis), com um emaranhado de acontecimentos sobre os quais não temos controle, e para os quais nos falta elementos cognitivos básicos, tendo que negociar estas escolhas e justifica-las publicamente. Sob este constante (auto)escrutínio, o sofrimento e adoecimento mental na Universidade evidenciam as pressões, contradições e impasses da vida universitária, em uma sociedade individualizada, da produção e do desempenho. Vivemos uma crescente subjetivação e individualização dos riscos e contradições socialmente produzidos, cada vez mais percebidos como fracasso pessoal e transformados em novas formas de risco particular e atribuição de culpa. Neste cenário, as recentes notícias sobre adoecimento mental e suicídio entre estudantes universitários trazem à tona um fenômeno que, de forma mais evidente ou difusa, vem preocupando a comunidade acadêmica e a sociedade como um todo há tempos. A FAPESP relata que, apesar do sofrimento psíquico ser um fenômeno muito presente entre estudantes, ainda há pouca oferta de atendimento. Notícias recentes informam que, apenas entre os meses de maio e junho de 2018, a USP registrou quatro casos de suicídio entre estudantes. Junto a questões eminentemente individuais e singulares, o sofrimento no ambiente universitário envolve também dimensões sócio estruturais, coletivas e institucionais. Ao pensarmos o sofrimento nestas quatro dimensões, não podemos desconsiderar como elas se relacionam e se determinam mutuamente, intensificam ou aliviam o impacto sobre os estudantes e pesquisadores. Em um momento no qual a comunidade científica é constantemente desafiada e ameaçada por agendas políticas alheias à produção e democratização do conhecimento; é fundamental que possamos ampliar o debate, escutando e engajando não apenas a Universidade (pesquisadores, professores, funcionários e estudantes), mas a sociedade em geral, informando, aprendendo e trocando experiências. 

 

Esta palestra será realizada no sábado, 19 de outubro de 2019 às 13h.

Palestrante: Dr. Thiago Marques Leão

É Doutor (2018) e Mestre (2013) pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - FSP/USP. Bacharel em Direito pela Universidade Católica do Salvador - UCSal (2010). Atualmente, é Professor Convidado na disciplina "Sociologia, Política e Saúde" (HSP 0155) da Graduação em Saúde Pública da USP e Pesquisador de Pós-Doutorado em Saúde Pública da FSP/USP (Projeto n.º 2018-1097). Também é Pesquisador do Grupo de Pesquisa Teoria Social, Mudanças Contemporâneas e Saúde - CNPq-FSP/USP (2014 - atual) e é Pesquisador do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos, Direito à Saúde e Família - CNPq-UCSal (2009 - atual). Foi Conselheiro deliberativo da Associação Paulista de Saúde Pública - APSP (2015 - 2017) e Coordenador do Núcleo Regional APSP-Sorocaba (2015-2016). Tem concentrado seus estudos nos seguintes temas: Saúde Coletiva e Saúde Mental Coletiva, Sofrimento Psíquico e Mal-Estar na Contemporaneidade, Individualização e Brasil Contemporâneo.

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