Simpósio: (Re)volta das Vacinas

Desenvolvimento de Vacinas

Desenvolvimento de uma nova vacina para Streptococcus pneumoniae administrada por via inalatória

      As vacinas são o principal meio de prevenção de doenças, havendo inclusive casos de erradicação como o da varíola. Vacinas contra infecções bacterianas são particularmente importantes no contexto atual devido ao aumento de cepas multirresistentes aos antibióticos. Contudo, desenvolver novas vacinas não é tarefa trivial, pois envolve diversas áreas do conhecimento tão distintas quanto a Imunologia e a Engenharia Bioquímica. As etapas do desenvolvimento incluem a descoberta do(s) antígeno(s) adequado(s), a avaliação em modelos animais para prova de conceito, o desenvolvimento do processo de produção e purificação do(s) antígeno(s), ensaios pré-clínicos e ensaios clínicos em humanos. Só após percorrer esse longo caminho, o registro é solicitado e a vacina pode ser produzida e distribuída para toda população. Como exemplo do desenvolvimento de uma vacina, esta apresentação tratará de uma nova vacina para Streptococcus pneumoniae administrada por via inalatória. S. pneumoniae é uma bactéria Gram-positiva que coloniza a naso/orofaringe humana geralmente de maneira assintomática, entretanto pode invadir outros nichos e provocar doenças graves como pneumonia, bacteremia, meningite e sepse,provocando inúmeras mortes, principalmente em crianças menores de 5 anos e idosos>65 anos. Além disso, o isolamento de cepas multirresistentes a antibióticos é crescente. A dificuldade para desenvolver vacinas para este microrganismo deve-se à existência de 97 sorotipos distintos, porém as vacinas atuais oferecem cobertura contra apenas alguns desses sorotipos, levando a uma pressão seletiva que provoca a substituição dos sorotipos na população, mitigando assim os efeitos da vacinação. Daí a necessidade da busca por novos antígenos que ofereçam cobertura independente dos sorotipos. Além disso, a vacinação pulmonar por via inalatória traria vantagens como o estímulo da imunidade de mucosa que bloquearia a entrada do patógeno, a eliminação do uso de agulhas, a formulação em pó aumenta a estabilidade da vacina que não precisaria ser armazenada sob refrigeração.

Palestrante: Drª Viviane Maimoni Gonçalves

Graduada em Farmácia Industrial (1991), mestrado em Biotecnologia (1997) e doutorado em Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica (2002), todos pela Universidade de São Paulo. Fez pós-doutorado no Instituto Pasteur, Paris, França, com bolsa do CNPq (2005). Atualmente é pesquisadora científica nível VI do Instituto Butantan. Atua na área de Biotecnologia com ênfase em desenvolvimento de Bioprocessos para produção e purificação industrial de biomoléculas, especialmente de antígenos de vacinas, tais como: produção e purificação de polissacarídeos capsulares de Streptococcus pneumoniae, produção de uma nova vacina celular inativada para S. pneumoniae, produção e purificação de proteínas recombinantes de pneumococo e do vírus Zika obtidas em cultivos de alta densidade de Escherichia coli. Além disso, a plataforma em E. coli recombinante também é investigada para produção e purificação de proteínas terapêuticas humanas como fator estimulador de colônia de granulócito e interferon.

Doenças Reemergentes

Bases Celulares e Moleculares da Resposta Imune à Vacina da Febre Amarela

     A escassez de informações acerca da imunidade vacinal antiamarílica motivou o início dos estudos das bases celulares e moleculares da imunidade vacinal antiamarílica 17DD pelo nosso grupo de pesquisa na FIOCRUZ-Minas, no início de 2003. Os primeiros estudos focalizaram a cinética de alterações fenotípicas e funcionais em leucócitos circulantes desencadeados pela vacinação antiamarílica em adultos isentos de reações adversas pós-primovacinação anti-amarílica 17DD. Estes estudos demonstraram que a imunização de adultos com a vacina antiamarílica 17DD, eficaz e isenta de efeitos adversos, induz numa análise global, uma resposta imune mista (pró-inflamatória e reguladora), apresentando eventos de ativação e modulação da imunidade inata e adaptativa, a qual parece ser essencial para o estabelecimento de uma resposta vacinal isenta de eventos adversos. Os estudos subseqüentes focalizaram em alterações fenotípicas e funcionais em leucócitos circulantes observados após a ocorrência de eventos adversos graves pós-primovacinação antiamarílica17DD em adultos. Os resultados mostraram que a ocorrência de eventos adversos graves viscerotrópicas após a vacinação anti-amarílica estão acompanhados por uma resposta adaptativa robusta, envolvendo células T e B associada à deficiências no eixo monocítico da resposta imune inata. Os estudos seguintes visaram esclarecer os eventos imunológicos desencadeados pela primovacinação antiamarílica 17DD em crianças para compreender as bases celulares e moleculares que justificavam a menor taxa de resposta observada após a primovacinação antiamarílica 17DD em crianças em comparação com adultos. Nossos resultados mostraram que crianças respondedoras ao antígeno amarílico vacinal, seja na primovacinação ou na revacinação, possuem leucócitos circulantes capazes de montar uma resposta balanceada de citocinas próinflamatórias e reguladoras, com envolvimento da imunidade inata e adaptativa, sendo importante no estabelecimento de uma resposta protetora num possível contato com o vírus amarílico selvagem. Por outro lado, Crianças não respondedoras à primovacinação anti-amarílica possuem, “à semelhança de indivíduos não vacinados, um conjunto de leucócitos circulantes incapazes de montar, uma resposta balanceada de citocinas, apresentando lacunas importantes de citocinas pró-inflamatórias da imunidade inata e elevação de citocinas reguladoras da imunidade adaptativa, representando um déficit importante na resposta protetora num possível contato com o vírus amarílico selvagem. Os conhecimentos científicos obtidos nestes estudos sugerem que o desenvolvimento de uma resposta imune ampla e polifuncional, integrando um grande contingente de células da imunidade inata e adaptativa, parece ser a chave das bases celulares e moleculares da resposta anti-amarílica eficaz isenta de reações adversas graves em adultos e crianças. Deficiências no sistema imune inato, principalmente no eixo neutrofílico/monocítico/macrofágico aparecem como principais alterações associadas aos eventos adversos graves e episódios de ausência de soro conversão. Em estudos seguintes,focamos em abordagens da imunidade vacinal antiamarílica induzidos pela Organização Mundial da Saúde e o Programa Nacional de Imunizações do Brasil, incluindo: validação de novos lotes semente; definição da duração de imunidade após primovacinação e revacinação antiamarílica 17DD e caracterização da resposta imune induzida por doses fracionadas da vacina 17DD. Atendendo à primeira demanda, realizamos um estudo comparativo da assinatura de citocinas em crianças primovacinadas com a vacina referência 17DD e com o lote semente 17D-213. Os resultados mostraram que a vacinação com o lote atual 17DD e com o novo lote-semente 17D-213 desencadeiam um perfil balanceado pró e anti-inflamatório na imunidade inata e adaptativa. Estudo da duração da imunidade antiamarílica em crianças após primovaciação antiamarílica 17DD demonstraram que numa análise conjunta da imunidade humoral e celular induzida pela primovacinação antiamarílica 17DD em crianças, os níveis de anticorpos neutralizantes e todos os indicadores de memória fenotípica/funcional apresentam uma queda progressiva com o tempo após a primovacinação, com ausência total após 4 anos, reforçando a importância da dose de reforço aos 4 anos após a primovacinação em crianças para garantir imunidade protetora antiamarílica. Estudo da duração da imunidade antiamarílica em adultos após primovacinação com a vacina antiamarílica 17DD os parâmetros sorológicos e de imunidade celular antiamarílicos obtidos sugerem a necessidade de revacinação de adultos no período de 10 anos após primovacinação antiamarílica 17DD, considerando que cerca de 75% dos indivíduos primovacinados mantêm o perfil de anticorpos protetores, mas apenas cerca de 30% apresentam o perfil completo de correlatos de proteção humoral e celular. Estudos realizados em indivíduos submetidos à revacinação demonstram que embora a análise da imunidade humoral e celular induzida pela vacina 17DD YF em adultos demonstra que, embora os níveis de anticorpos neutralizantes e a memória efetora das células T CD8 apresentem um declínio progressivo ao longo do tempo após a primovacinação, a revacinação ou a aplicação de mais de duas doses garante a estabilidade e persistência de biomarcadores de proteção em longo prazo. Por fim, os estudos subsequentes focalizaram a análise da imunogenicidade dose-resposta da vacina antiamarílica. Nossos resultados mostraram que embora a utilização de biomarcadores convencionais (PRNT) sugerem que doses até ~47 vezes menores (587UI) possuem perfil similar ao observado na dose referência, a utilização de um painel ampliado de biomarcadores complementares,restringe a doses até ~9 vezes menores (3,013UI) a capacidade de induzir um perfil imunológico similar ao desencadeado pela dose referência. Sendo assim, nossos resultados demonstram que doses até ~9 vezes menores (3,013UI) induzem perfis de anticorpos neutralizantes, viremia e biomarcadores imunológicos séricos semelhantes aos observados na dose referência. Estudo mais recentes, tem da duração da Imunidade de longo prazo 8 anos após a vacinação dose-resposta em adultos demonstraram que foram encontradas diversas similaridades em parâmetros de memória imunológica, incluindo biomarcadores considerados importantes correlatos de proteção, entre voluntários que receberam doses menores da vacina antiamarílica 17DD, mesmo 8 anos após a primovacinação. Estudos ora em andamento viram avaliar a duração da imunidade vacinal antiamarílica em pacientes em uso de terapias imunomoduladoras.

Palestrante: Prof. Dr. Olindo Assis Martins Filho

Graduado em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal de Ouro Preto (1989), mestrado em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1992), Pesquisador Visitante na Johns Hopikns University (1994), doutorado em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1997) e pós-doutorado pela The University Of Texas Houston, UTH, Estados Unidos (1999). Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz e Chefe do laboratório de Biomarcadores de Diagnóstico e Monitoração do Centro de Pesquisas René Rachou/FIOCRUZ-Minas, com experiência na área de Imunologia Celular e Molecular, com ênfase na busca de novas metodologias aplicadas ao diagnóstico, imunidade vacinal e monitoração de doenças infecto-parasitárias, incluindo a Doença de Chagas, as Leishmanioses Tegumentar, Visceral humana e Canina, flaviviroses (Febre Amarela e Hepatite C) e infecção humana pelo HTLV-I.

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