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Cloroquina: história, ciência e política.


Cloroquina - a substância que conseguiu entrar em debates políticos e científicos e em ambos ocupar o papel de salvadora e rapidamente de vilã. Ela tem uma história que vai muito além da atual pandemia de covid-19.


O medicamento é derivado da casca de uma árvore chamada cinchona, nativa da região dos Andes. A descoberta dos seus fins medicinais deu-se início com o quinino, um pó branco extraído da casca e que foi muito eficiente no combate à malária.


Ainda que a ciência tenha se desenvolvido e desenvolvido sintéticos do quinino, a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina se mostrou tão eficiente que muitas lendas foram criadas a respeito do seu descobrimento.


A versão espanhola, é talvez a mais interessante por contar com o acaso. Diz-se que um soldado espanhol, acometido de malária, foi deixado para trás para morrer por seus companheiros. Torturado pela sede, ele rastejou até um pequeno lago, bebeu água e caiu no sono. Ao acordar, percebeu que a febre tinha desaparecido. Então, lembrou-se de que a água tinha um gosto amargo e que um grande tronco de árvore, rachado por um relâmpago, estava caído no lago. A casca dessa árvore, o soldado concluiu, tinha o extraordinário poder de curar a malária.

Existem versões também, em que a substância passou a ser usada por indígenas após europeus trazerem a malária para a América. É de se dar crédito a essa história, uma vez que, o conhecimento indígena sobre o poder medicinal da flora é vasto e o responsável pela longevidade dos povos nativos.


No entanto, a cloroquina como a conhecemos hoje, foi desenvolvida em 1934 pelo investigador da Bayer, Hans Andersag. Por sua importância médica ela passou a fazer parte da Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde, uma lista com os medicamentos mais eficazes, seguros e fundamentais num sistema de saúde.


É, portanto, essa versão mais recente da cloroquina que tem entrado em pauta.

Com a pandemia que a humanidade tem enfrentado, era de se esperar que a ciência fosse o carro chefe na busca por uma cura e os cientistas, por sua vez, trabalham arduamente para que isso ocorra. Mas, toda a pressão social, financeira e emocional, tem ocasionado erros na divulgação cientifica.


Na pressa e ânsia de apresentar resultados, um dos artigos publicado no dia 20 de março no International Journal of Antimicrobial Agents citava os estudos realizados com 42 pacientes que estavam sendo medicados com a hidroxicloroquina e apresentavam resultados positivos no combate aos sintomas da covid-19. Posteriormente, o artigo foi revisado e os métodos usados na pesquisa foram criticados.

Após esse incidente, os rumores de que a hidroxicloroquina fosse a resposta para o coronavirus pegou carona em outra pandemia, a “infodemia”, como foi denominada pela OMS a recente difusão massiva de desinformação.

As redes sociais, então, ficaram infestadas de falsos depoimentos em que pessoas tinham sido curadas utilizando o medicamente e, junto a isso, o atual presidente dos Estados Unidos, chegou a afirmar que a agência regulatória de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, havia aprovado o uso da hidroxicloroquina em pessoas infectadas.


No Brasil, o debate sobre o uso do medicamento foi além da esfera cientifica quando o presidente Jair Bolsonaro também apoiou o uso do fármaco.


A declaração causou alvoroço, uma vez que, estudos feitos no país já tinham levantado forte indicio de sua ineficiência. A pesquisa foi realizada em Manaus e avaliava o uso do medicamente em duas dosagens, uma mais baixa e outra mais alta, em pacientes com Covid-19. Os resultados foram tão negativos que o estudo precisou ser interrompido após 11 participantes morrerem. Parte deles havia recebido doses mais altas do fármaco, o que pode ter desencadeado complicações cardíacas fatais.

Atualmente, a OMS pediu a suspensão de testes com o uso da hidroxicloroquina no tratamento da infecção pelo coronavírus após a constatação no aumento no risco de mortes.


Sendo assim, muito se falou sobre interesses econômicos por trás das declarações apoiando o fármaco, mas, quanto a isso, nada foi provado.


Por fim, para nós, resta reconhecer a ampla utilidade desse medicamento, que marcou a história sendo um dos principais responsáveis por combater a malária.


Mas que não é versátil o suficiente por salvar a humanidade mais uma vez!


Para o combate do coronavirus, será necessário ainda muita pesquisa cientifica e muito esforço coletivo.





Fontes:

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/25/saude-mantem-indicacao-para-uso-de-cloroquina-e-hidroxicloroquina-no-tratamento-da-covid-19.ghtml

https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/05/20/correcao-veloz-de-erros/

https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/05/08/o-arsenal-antivirus/

https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/04/07/epidemia-de-fake-news/

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/04/10/historia-da-cloroquina-reune-polemicas-com-homeopatia-e-imperio-romano.htm

http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=828&sid=7

Crédito a imagem: Pixabay


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