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A ciência leva mais um golpe


No final do ano de 2017, o médico Elisaldo Carlini, considerado um dos maiores pesquisadores sobre drogas psicotrópicas do Brasil, foi intimado pela Polícia de São Paulo para prestar esclarecimentos devido a uma acusação de apologia ao crime.

Elisaldo é especializado pela Universidade de Yale em psicofarmacologia, professor emérito da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e um dos criadores do “Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid”. Há mais de sessenta anos tem se dedicado ao estudo sobre efeitos das drogas, principalmente sobre o uso medicinal da maconha. Em entrevista à BBC, o médico declarou “Quando recebi a carta, quase caí para trás. Não era possível que estava sendo acusado disso. Em todos esses anos de trabalho, nunca havia me acontecido algo assim.”

“Fui condecorado duas vezes pela Presidência. Minhas pesquisas já foram citadas mais de 12 mil vezes por pesquisadores de todo o mundo. Coordeno um centro de pesquisa na área na Unifesp. Tudo sempre com um aspecto eminentemente científico”, diz Carlini.

“Essa lei brasileira [que proibe o uso medicinal da cannabis] é uma vergonha para o país, vou continuar lutando da maneira que puder para que ela acabe”, afirmou à GALILEU.


A intimação ocorreu por conta de sua participação na organização de um simpósio sobre a maconha, em maio de 2017, contando com abordagens em diferentes áreas, como política, história, direito e cultura, para discutir questões em relação ao uso da droga.


Um de seus convidados, seria o criador da primeira igreja rastafári do Brasil (que faz uso da droga em rituais de meditação), Geraldo Antonio Baptista, conhecido como Ras Geraldinho. Entretanto, Geraldo está preso desde 2013 após a apreensão de 37 pés de maconha em sua igreja, no interior de São Paulo. Para que Geraldinho pudesse participar do Simpósio, Carlini e outros organizadores pediram a justiça para que ele pudesse sair temporariamente, pedido que foi negado. Segundo a BBC, tal pedido, analisado pela promotora Rosemary Azevedo Porcelli da Silva, do Ministério Estadual de São Paulo (MPE-SP) em Campinas, provocou indignação a promotora, pois, de acordo com documento enviado a um promotor de São Paulo, no convite havia fortes indícios de apologia ao crime.


Em entrevista a BBC, Elisaldo declarou: “Sempre fui contra a condenação da maconha como uma droga perigosa. Ela é cada vez mais reconhecida como um bom medicamento e tem efeitos positivos amplamente descritos pela comunidade científica mundial, principalmente em casos de esclerose múltipla e epilepsia. Tenho que falar sobre o que eu acredito. Mas nunca falei uma palavra a favor ou contra o uso recreativo. Qual foi meu crime? Posso ir para a cadeia por causa disso”. “Senti uma revolta imensa, porque sempre pude falar dos efeitos positivos da maconha e nunca tive problemas. Isso é uma ofensa para a ciência brasileira.”


De acordo com o advogado Cristiano Maronna, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e representante de Carlini, existem outras formas de a promotora abordar a situação. “Essa medida é de uma ilegalidade flagrante, uma violação da liberdade de investigação científica, algo garantido pela Constituição. Estamos vivendo um estado policialesco em que há a ideia de tudo é possível para combater o crime, um estado de exceção em que direitos e garantias foram colocados em coma induzido.”


Tal noticia gerou grande repercussão entre a comunidade científica no Brasil:

Stevens Rehen, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou: “Trata-se de um atentado contra um senhor de quase 90 anos cujo ‘pecado’ é fazer ciência no Brasil de qualidade internacional. Se o professor Carlini foi parar na delegacia, imaginem o que poderá acontecer com outros cientistas brasileiros que estudam o potencial terapêutico dos canabinoides, psicodélicos etc?”

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em comunicado à imprensa, repudiam tal acusação: “Acusar o Dr. Carlini de apologia às drogas equivale a criminalizar a inteligência e o conhecimento técnico-científico. Trata-se de uma provocação cruel e vazia contra um cientista que dedicou toda sua vida à fronteira do conhecimento”.

Membros do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina – EPM – Unifesp,  divulgaram uma nota de apoio a Carlini: “Nosso professor é reconhecido nacional e internacionalmente por suas pesquisas na área de drogas psicotrópicas e de plantas medicinais. Sua atuação ético-político-acadêmica na universidade sempre esteve pautada em uma ação cidadã, de luta pela democracia, pela liberdade de pensamento e pela justiça e solidariedade social. Não podemos aceitar qualquer forma de constrangimento à liberdade e à autonomia necessária para a realização do trabalho acadêmico-científico.”


Apesar da situação, Elisaldo busca enxergar o lado positivo: “Está havendo uma movimentação maravilhosa, falei até com veículos internacionais sobre isso. Agora resta torcer para que o povo brasileiro possa se apaixonar por questões dessa ordem.”

Fontes:

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43176883

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/02/pioneiro-em-pesquisa-sobre-maconha-no-brasil-e-acusado-de-apologia-ao-crime.html

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