Mesa Redonda II - Transexualidade e Incongruência de Gênero

Alterações Endócrinas

Alterações Endócrinas

     Para entender a transexualidade faz-se necessário compreender que o sexo biológico e as características físicas não determinam a identidade de gênero e/ou a percepção que se tem de si. Comumente a referência que se dá aos transexuais é que são pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao papel sociocultural que é atribuído ao nascer. Assim, há a necessidade dos familiares e dos profissionais da saúde respeitarem e acolher para que o sofrimento diante do conflito estabelecido pelos padrões heteronormativos da sociedade, em relação a tais pessoas, sejam amenizados até o estabelecimento pleno da identidade de gênero das mesmas (SAMPAIO, COELHO 2012).

     Quando pessoas transexuais decidem readequar a identidade de gênero à qual se identificam, é no corpo que se concentram os principais símbolos de feminino e masculino, há,portanto, um investimento de conhecimento, tempo e dinheiro na construção da real identidade corporal. No processo de construção da identidade de gênero transexual, deve-se levar em consideração que, um fator importante para o processo, é o uso de hormônios e implantes de silicone. Na maioria das vezes, o uso de hormônios sexuais não ocorre com o acompanhamento nos serviços de atenção básica à saúde, devido ao fato de que, quando buscam orientação sobre cuidados e atenção aos agravos à saúde, são tratadas pelo sexo biológico e não pela identidade de gênero (BENTO 2014).

     O início indiscriminado e inadequado dos hormônios sexuais ocorre, muitas vezes, na adolescência, por volta dos 14 aos 15 anos de idade, com a ingesta ou aplicação de medicamentos com progesterona ou/e estrogênio, que no organismo promovem o desenvolvimento das mamas,o arredondamento dos quadris, afinam a voz e também a diminuição da produção de pelos,principalmente da barba, peito e pernas.As mulheres transexuais usam mais frequentemente o hormônio estrogênio para a indução dos caracteres sexuais secundários femininos. As apresentações farmacológicas oral,injetável, intravenosa, transdérmica, sublingual, além dos hormônios naturais (estrona, 17 α–estradiol e o 17 β-estradiol), o hormônio sintético oral é o mais usado (valerato de estradiol,benzoato de estradiol e etinilestradiol), muito embora não as impeçam de usarem todas as apresentações em busca de satisfação plena do desejo pretendido em ter o corpo readequado mais rapidamente (BENEDITTI 2005).

     O hormônio estrógeno é o mais usado sejam os naturais (estrona, 17 α–estradiol e o 17β-estradiol) ou os sintéticos (valerato de estradiol, benzoato de estradiol e etinilestradiol). A via oral é amais utilizada, devido ao baixo custo e facilidade na administração, visto que, na forma injetável, há a necessidade de ajuda para ser injetado e, também, é uma via que apresenta um período longo para o surgimento dos caracteres sexuais secundários. Para que haja potencialização dos efeitos, os antiandrógenos (acetato de ciproterona também denominado Androcur) podem ser utilizados, uma vez que bloqueiam a ligação da testosterona ao seu receptor, ajudando na diminuição dos caracteres sexuais secundários masculinos (ROMANO 2008;BRUNN 2003).

     Os resultados de um estudo com transexuais mostraram que a associação de progestegênios pode potencializar o desenvolvimento das mamas, porém aumenta o risco de doenças coronarianas, acidente vascular cerebral e fenômenos tromboembólicos. Quando os hormônios são usados por via oral, são ingeridos em grande quantidade e, muitas vezes, sem orientação médica. Geralmente usam grandes dosagens por meses seguidos ou intervalos com períodos de uso constante.Historicamente, a doença tromboembólica venosa tem sido motivo de preocupação em mulheres transgênero submetidas à terapia hormonal. Este risco tem sido identificado principalmente em estudos mais antigos em que o estrogênio sintético trombogênico,etinilestradiol, foi utilizado em oposição ao estradiol ou estrogênios conjugados.Fatores de risco hipercoaguláveis têm sido associados a muitos dos casos de tromboembolismo venoso relatado (TEV). Estudos recentes relataram o risco de TEV em mulheres transexuais podem ser substancialmente menores com o uso de estradiol transdérmicos. Em contraste, os homens transgêneros não sofreram complicações trombogênicas semelhantes (BRUNN 2003).

     Embora maiores, os estudos retrospectivos mais antigos são misturados ao encontrar risco elevado de morbidade ou mortalidade cardiovascular, dados mais recentes mostram mortalidade e morbidade excessivas, principalmente entre mulheres transgêneros, relata-se uma incidência de infarto do miocárdio (MI) entre as mulheres transgêneros em terapia hormonal que corresponde ao dos controles masculinos não transgêneros, mas ultrapassou os controles femininos não transgêneros. Também observa-se aumentos na doença cerebrovascular e ataque isquêmico transitório (TIA) entre as mulheres transgêneros em comparação com os controles masculinos não-transgêneros (TOORIANS 2003). Esses estudos envolveram uma maior proporção de indivíduos mais velhos, fumantes e aqueles com fatores de risco cardíaco adicionais. Os homens transgêneros, notadamente, não exibiram nenhuma diferença na taxa de acidente vascular cerebral, TIA ou MI em comparação com os controles masculinos não transgêneros nestes estudos (TOORIANS 2003).

    Os riscos de tromboembolismo venoso são aumentados quando durante a terapia hormonal, há a prática do tabagismo, quando há doenças cardiovasculares pré-existentes além da deficiência de fatores tromboembólicos (fator V e a antitrombina). Pode haver aumento do nível de prolactina, em geral aumento discreto, no entanto, pode uma pequena porcentagem de mulheres transexuais apresentar galactorreia e níveis elevados de prolactina (BRUNN 2003; VANDENBROCKE, 1994).

      Há relatórios mistos sobre o impacto da pressão arterial por terapia hormonal entre homens e mulheres transgêneros. Uma revisão sistemática e meta-análise de múltiplos estudos de baixa qualidade não identificaram alterações significativas da pressão arterial. Estudos prospectivos de curto prazo (6 a 12 meses) não mostram alterações significativas com o estrogênio (BRUNN 2003).

     Com a terapia hormonal, as mulheres transgênero apresentam aumento da resistência à insulina, glicose em jejum aumentada ou neutra e aumento da gordura subcutânea. Os homens transgêneros relataram ter um ligeiro aumento na resistência à insulina, uma diminuição da glicemia de jejum e um aumento da gordura visceral.

     Estudos mostraram que efeitos colaterais como depressão e eventos tromboembólicos mostraram-se reversíveis quando ocorre a interrupção temporária. Do uso do hormônio, o principal efeito mencionado é o tromboembolismo venoso, principalmente no primeiro ano de uso em que a incidência é de 2% a 6%e, no segundo ano, declina para 0,4% de uso dos hormônios.A maior incidência de eventos tromboembólicos está relacionada ao tipo de estrógeno usado.Mulheres transexuais que fazem uso do etinilestradiol estão mais susceptíveis do que as que usam estrógenos naturais orais ou os transdérmicos (TOORIANS 2003; BRUNN 2003).

     Na literatura foram descritos casos isolados de câncer de mama em mulheres transexuais quando em uso de terapia hormonal, porém com incidência extremamente baixa (GANLY 1995;SYMMERS 1968). O modo pelo qual adquirem os hormônios vão desde a compra em farmácias até a aquisição por intermédio de amigas que se cadastram em postos de saúde e as repassam,uma vez que o motivo de não irem aos serviços de saúde seja a negativa de adquirirem os hormônios por não possuírem órgãos feminino.

Referências:

BENEDETTI, Marcos Renato. Toda feita: o corpo e o gênero das travestis. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

 

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. 2ª ed., Natal; EDUFRN,2014.

 

BRUN, Maria Alves de Toledo; PINTO, Maria Jaqueline Coelho. Vivência transexual: o corpo desvela seu drama. Campinas: Átomo, 2003.

 

GANLY, I; TAYLO, E.W. Breast cancer in a transexual man receiving hormone replacementtherapy. British Journal of Surgery, v.82, p.341, 1995.

 

ROMANO, Valéria Ferreira. As travestis no Programa Saúde da Família da Lapa. Saúde soc, 7(2), p.211-219, 2008. Disponívelem: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010412902008000200019&lng=en&nrm=iso> Acesso em: 16 Set 2017

SAMPAIO, Liliana Lopes; COELHO, Maria Ávila Dantas. Transexualidade: aspectos psicológicos e novas demandas ao setor saúde. Interface (Botucatu), Botucatu,v.16, n.42, p.637-649, Set, 2012. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141432832012000300005&lng=en&nrm=iso.> Acesso em: 16 Set 2017.

 

SYMMERS, W. S. Carcinoma of breats in transexual individuals after surgical and hormonal interference with the primary and secondary sex characteristics. British Med. J., v.2, p. 82-85, 1968.

 

TOORIANS, AW et al. Venous thrombosis and changes of hemostatic variables during cross-sex hormone treatment in transsexual people. J Clin. Endocrinol. Metab., v.88, n. 12, p. 5723-5729, 2003.

 

VANDENBROCKE, J P; KOSTER, T; BRIET, E. Increased risk of venous thrombosis in oral-contraceptive users who are carriers of factor V Leiden mutation. Lancet, v.344, p. 1453-1457, 1994.

Palestrante: Msc. Carla Andreia Alves de Andrade

Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação de Enfermagem UPE/UEPB. Mestre no Programa de Pós Graduação de Enfermagem em Educação em Saúde pela UFPE . Possui graduação em enfermagem pela Universidade Federal de Pernambuco (2006) tendo habilitação e licenciatura em enfermagem UFPE (2007). Com pós-graduação em Estomaterapia pela FENSG - UPE (2011) e Gênero e Sexualidade pela Unileya (2018). Consultora em Saúde e Educação Sexual .Tem experiencia como Estomaterapeuta em avaliação de lesões em home care. Atua principalmente nos seguintes temas : educação em saúde, atenção básica em saúde, saúde do adulto , sexualidade nas diferentes fases do desenvolvimento e assistência de Enfermagem em sexualidade com foco no público LGBT. Membro do grupo de pesquisa Redução de perdas e danos à Saúde do publico jovem LGBTTIS. Membro do corpo editorial do Journal or Nursing UFPE- on line. Revisora da Revista de Enfermería y Humanidades. 

Experiência de Vida

Transgêneros

Este será um encontro em que iremos conversar as principais questões sobre transgêneros. Iremos abordar a teoria e formação do gênero e as características que determinam o perfil de identidade sexual do indivíduo, e o que representa o estado de disforia de gênero. Serão tratados também as questões científicas, sociais e psicológicas envolvendo transgêneros na atualidade, incluindo neste foco a Universidade e o meio acadêmico. Por fim,iremos esclarecer algumas peculiaridades que devem ser observadas no atendimento público à esta população.

Palestrante: Profª Drª Daniela Cardozo Mourão

Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998), mestrado em Física pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2001) e doutorado em Engenharia e Tecnologia Espaciais pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (2005). Atuou como professora visitante da Universidade de Brasília. Atualmente é professora junto ao Departamento de Matemática na UNESP em Guaratinguetá. Tem experiência na área de Astronomia, com ênfase em Astronomia Dinâmica.

Acompanhamento Psicológico

Psicologia e a Transexualidade

Falar sobre a atuação dos profissionais da Psicologia acerca do universo da sexualidade humana é uma necessidade a ser operacionalizada, pensando a esse respeito não podemos deixar de mencionar que os conceitos de saúde e doença, normalidade e a normalidade são construções que sofrem alterações e influencias da história, religiões, política, economia. Pois sabemos que um determinado comportamento humano poderá ser aceito dentro das normativas sociais em determinada época e local e tolhido em outro contexto. Durante muitos anos a Psicologia brasileira se manteve omissa em relação ao posicionamento acerca dos gêneros e identidades que de alguma forma não representa o modelo binarismo pré-estabelecido. No entanto, essa realidade começa a mudar com a resolução 001/1999 estabelecendo diretrizes aos Psicólogos e Psicólogas sobre o posicionamento dessa ciência e profissão as diversas expressões das homossexualidades, tal resolução partiu do pressuposto que essas orientações do desejo são tão legitimas e nada inferior à heterossexualidade. Após 9 longos anos, o sistema Conselho Federal de Psicologia respondendo as demandadas e necessidades biopsicossociais vivenciada pela população Trans, publicou a resolução 001/2018 estabelecendo normas de atuação dos profissionais acerca dos serviços prestados a essa população. Ressaltando que esse documento partiu do princípio que as identidades travestis e transexuais não constituem distúrbios, perversões ou doenças mentais, mas legitimas formas da subjetividade humana.

Palestrante: Francisco André da Silva

Francisco André da Silva é graduado e pós-graduado em Psicologia Clínica pelo Centro Universitário de João Pessoa-UNIPÊ. Vem ao longo dos anos desenvolvendo seu trabalho como Psicoterapeuta no atendimento individual e grupal de crianças, adolescentes, adultos e casais. Embora trabalhe com o referencial da Abordagem Centrada na Pessoa, este vem desenvolvendo constantes diálogos com outras perspectivas do saber clínico, especialmente com a Psicanálise, o Psicodrama e a Psiquiatria. André tem experiência no cuidado psicoterápico de pessoas acometidas por transtornos mentais graves e severos com ênfase no atendimento de pessoas com transtornos ansiosos, do humor e psicóticos. O mesmo atuou no campo da Saúde Mental como psicólogo clínico no Centro de Atenção Psicossocial-CAPS II na cidade de Bayeux, onde desenvolveu uma prática de cuidado psicoterápico grupal com os usuários daquele serviço. Outra experiência desse profissional está na pratica de atendimento as questões dos gêneros e sexualidades. Atualmente além do consultório particular, faz parte da equipe de profissionais técnicos do Conselho Tutelar, trabalhando com a garantia de direitos das crianças e adolescentes. Possui interesse nas áreas da Psicologia Clínica, Gênero e Sexualidade Humana, Saúde Mental, dentre outros.

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